À deriva

O silêncio era absoluto. Depois de quase dez horas serpenteando pelos rios do Parque Indígena do Xingu, a excitação dos primeiros momentos já havia cedido lugar para o cansaço. Nem o motor da pequena lancha parecia ter mais força – desligou-se sem maiores explicações. Ficamos lá, à deriva no meio do rio Culuene. Em um misto de ansiedade e receio, jornalistas, antropólogos e professores aguardavam o fim do trajeto. Àquela altura, ninguém sabia nem mesmo se chegaríamos a algum lugar, já que o motor parecia não mais obedecer a Maradona, o índio barqueiro que nos conduzia pelos labirintos amazônicos.

A maioria dos presentes já viajava há quase dois dias. Inclusive eu. Uma hora de vôo até Cuiabá (MT), quatorze horas de ônibus comercial até Canarana (MT), três horas de ônibus fretado até um ponto do rio Culuene, a partir do qual seguiríamos de barco. Esse era o trajeto que me separava da metrópole paulistana. Depois da longa odisséia, flutuando na velocidade e na direção da correnteza, perdidos entre as estrelas e as árvores, aguardávamos por um milagre que nos levasse até a Aldeia Ipavu, nosso destino final. Era tudo que podíamos fazer. Passamos mais de uma hora naquela situação até que outra lancha, com o motor intacto, nos ultrapassou com a promessa de trazer ajuda. Foi quando o barulho intermitente do motor quebrou novamente o silêncio.

Maradona era o dono do milagre. Depois de desmontar e remontar o motor, ele roubou da correnteza o poder sobre a lancha. Estávamos novamente na direção correta. Alguns minutos depois, descíamos em uma pequena praia, entre aliviados e excitados. A pouca luz daquela noite sem lua que já se aproximava da meia-noite não nos permitia ver muito do porto improvisado. Tentávamos decifrar as cores e os detalhes dos vultos de árvores que se erguiam em direção ao céu quando os tripulantes da lancha que havia nos ultrapassado no rio Culuene nos deram a notícia: “Teremos que dormir aqui essa noite. Já está tarde e não temos transporte até a aldeia”. Um banho de água gelada no rio, uma fogueira para aquecer a noite fria de julho, redes amarradas e o merecido descanso – daquele tipo que, de tão necessário, deixa de ser exigente e não se incomoda com os pequenos desconfortos de uma noite na floresta.

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