Novos sons, cheiros e cores

Quando se dorme ao ar livre, é inevitável acordar com os primeiros raios de sol, que naquela manhã nos revelavam as belezas protegidas pela escuridão da noite anterior. O tempo para admirarmos a exuberância da Floresta Amazônica que nos cercava, porém, foi curto. Logo o caminhão sobre o qual terminaríamos nosso trajeto buzinou anunciando sua chegada. Entre peixes recém-pescados e mochilas surradas seguimos na carroceria, desviando de galhos mais baixos que pareciam querer brincar de nos perseguir. Não foram necessários mais do que 15 minutos para finalmente avistarmos as enormes ocas da Aldeia Ipavu.

 O cheiro de urucum, o ritmo das flautas de taquara e as cores vibrantes das pinturas e linhas ostentadas pelos corpos indígenas transformaram os primeiros momentos na aldeia em uma inebriante experiência sinestésica. Ali, mais de 500 índios paramentados para a celebração que marcava os 50 anos deste território indígena desfilavam com seus cocares e chocalhos, relógios e óculos. Nas rodas de discussões sobre o que realmente significava a demarcação do território e os desafios futuros dos povos que nele vivem, caciques, pajés, professores e jovens exibiam a lucidez e a perspicácia com que analisavam os homens brancos, fruto de anos de convivência nem sempre pacífica com o mundo que os havia alcançado dezenas de anos antes.

 À minha frente não estavam os índios inocentes e doces descritos na literatura por autores como José de Alencar. Inteligentes e firmes ao colocarem suas opiniões, também não eram aqueles índios os símbolos de atraso e malandragem projetados pelos tantos textos e atos preconceituosos que se espalham por toda a parte. Eu não conseguia classificá-los e, com o tempo, percebi que não deveria fazê-lo. Afinal, toda classificação de grupos sociais tende a nos cegar pela generalização que lhe é intrínseca. Assim sendo, fiquei ali, como mera expectadora daquela realidade ritual, na tentativa de entender sem julgar os códigos de conduta que gerenciavam a vida dentro do Parque Indígena do Xingu.

 Abaixo, um pequeno vídeo produzido na Aldeia Ipavu para que aqueles que nunca pisaram em uma aldeia indígena escutem um pouco dos sons que as embalam e conheçam a música da taquara.

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