O país do etanol
O Brasil é apontado como a grande fonte de álcool derivado de cana-de-açúcar, a forma de energia mais promissora para substituir a gasolina do petróleo. Mas é preciso resolver antes algumas questões estratégicas
Texto: Giovana Girardi
Horizonte Geográfico - Edição 112
 |
| Colheita manual de cana queimada em usina de Sertãozinho (SP): prática está com os dias contados |
|
Há quinze anos, José Barbosa saiu de Minas Nova (MG) em direção a Sertãozinho, no interior de São Paulo, para trabalhar nos canaviais da principal região sucroalcooleira do País. O pagamento, melhor do que em outras culturas agrícolas, e a grande oferta de trabalho compensavam a dura lida – única alternativa para o então jovem de 23 anos que havia estudado só até a 3ª série do ensino fundamental. De segunda a sábado, sob sol ou chuva, às 7 horas da manhã ele já está no campo, lenço na cabeça, facão na mão, diante de uns 250 metros de cana queimada pela frente para cortar. A rotina é a mesma desde que se mudou para terras paulistas.
A fuligem no ar incomoda, e pouco mais de uma hora depois de iniciado o serviço, ele e os demais colegas já estão com os rostos pretos. Problemas respiratórios são comuns, mas eles não ligam. “Bom não é, mas é só o que temos para fazer”, dizem. Essa centena de homens com histórias de vida semelhantes é protagonista, no entanto, de um cenário em vias de extinção.
Nos próximos anos, o Brasil deve presenciar a expansão sem precedentes da produção de cana, na tentativa de substituir parte do uso de gasolina por álcool combustível nos carros. Mas isso não deverá significar mais trabalho para os bóias-frias, ao menos não da forma como eles estão acostumados a fazer hoje no Estado de São Paulo. Um protocolo, assinado entre o governo estadual e a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) no começo de junho, estabelece que, até 2014, não poderá haver mais queimadas nas plantações. Com a proibição, vai ganhar espaço o corte mecanizado.
O fim das queimadas
A modernidade já está logo ali. A frente de corte onde se encontravam Barbosa e companhia é uma das últimas da Usina Santo Antônio, que tem cerca de 70% da colheita feita por máquinas. A poucos quilômetros fica a Usina São Francisco, comandada pela mesma família Balbo, que aboliu completamente as queimadas e o corte manual com a implantação do Projeto Cana Verde, de produção orgânica. “Risco de ficar sem emprego a gente sempre tem, né? Mas até lá (a mecanização total), eu já aprendi a fazer alguma outra coisa”, comenta, com uma pontinha de medo, Vanilson Jesus da Silva, de 26 anos, há quatro na labuta. “O cortador terá de vir para dentro da indústria, para a manutenção das colheitadeiras, Mas para isso, claro, teremos de educá-lo. O corte de cana queimado está condenado a acabar”, explica Jairo Balbo, diretor industrial da São Francisco.
 |
| O Brasil produz 280 milhões de toneladas de cana por ano, sendo 56% em São Paulo. São 150 agroindústrias, como em Promissão (acima), A cana ocupa 13,3% da área cultivada no interior do estado |
|
Hoje, o açúcar que sai da usina é quase todo orgânico. Só não atingiu os 100% porque a empresa conta com cana de fornecedores que ainda trabalham com sistemas tradicionais. Dos 55 milhões de litros de álcool produzidos por ano, 7 milhões são orgânicos, mas essa leva ainda é toda voltada para a indústria alimentícia e não vira combustível. A base do Projeto Cana Verde, no entanto, é a mecanização. Colhendo a cana crua, a palha remanescente que fica sobre o solo serve como proteção contra a erosão e a insolação. Ao se decompor, ela acaba fertilizando o solo, preparado para a nova safra. O controle biológico de pragas evita o uso de agrotóxicos.
A São Francisco e a Santo Antônio possuem laboratórios entomológicos para a criação de insetos que combatem as principais pragas da lavoura. Para completar, a São Francisco é auto-suficiente em produção de energia elétrica a partir da queima do bagaço da cana. A energia gerada é suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes. Mas todo esse esforço dos Balbo tem fundamentação principalmente ambiental e destina-se a tornar o cultivo mais sustentável.
Aquecimento global
É uma preocupação legítima diante do crescimento iminente da importância do cultivo da cana. Este ano, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), grupo de cientistas reunidos pela ONU (veja reportagem na edição 111 da revista), divulgou um relatório em três partes que aponta os danos que estão sendo causados pelo aumento da temperatura do planeta e estima as tragédias que vão ocorrer se não houver uma redução significativa das emissões de gases causadores de efeito estufa. O principal deles, o gás carbônico (CO2), é resultado da queima de combustíveis fósseis.
Especialistas ambientais sugerem que, por esse motivo, os derivados de petróleo terão de ser substituídos por formas limpas de energia, antes mesmo de suas reservas serem extintas na natureza. Segundo o grupo de cientistas, “os biocombustíveis podem ter um importante papel no controle das emissões de gases estufa no setor de transportes” e podem representar até 10% da matriz do setor em 2030. Não foi avaliado quais plantas seriam as mais adequadas para essa expansão, mas depois da divulgação do relatório, as atenções mundiais se voltaram para o Brasil, que tem sido considerado o país com o maior potencial para produzir combustíveis a partir da biomassa. Isso por causa da experiência de mais de 30 anos com etanol e a extensa área agricultável para o plantio de oleaginosas, como dendê, matéria-prima para o biodiesel.
A maior vantagem do etanol de cana-de-açúcar é de praticamente zerar as emissões de CO2. O que é jogado no ar com a queima do combustível acaba sendo reabsorvido durante o período de crescimento da planta na safra seguinte. Só não se pode dizer que o equilíbrio é total porque a grande maioria das plantações usa fertilizantes, defensivos agrícolas, tratores e caminhões, produtos que para serem feitos e operados utilizam combustíveis fósseis.
 |
| Produção utiliza controle biológico no combate a pragas. Tecnologia desenvolvida nas usinas evita a aplicação de defensivos químicos agrícolas |
|
Hoje, o Brasil produz cerca de 16 bilhões de litros de álcool por ano, em quase 3 milhões de hectares, o suficiente para atender a 40% da frota de veículos nacionais. Para substituir completamente a gasolina, essa produção teria mais que dobrar. De acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), há espaço para isso: cerca de 90 milhões de hectares disponíveis para a expansão da agricultura, sem que seja necessário pressionar áreas sensíveis como a Amazônia ou o Pantanal Mato-Grossense.
“Mas se esta expansão for desordenada, pode ampliar os já sérios impactos sobre os ecossistemas brasileiros”, alerta Agenor Mundim, da Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável (FBDS). “O respeito aos recursos hídricos e ao solo, às matas ciliares, o abandono ou mitigação dos malefícios causados pelas queimadas na colheita da cana, o adequado emprego de defensivos são práticas que devem ser seguidas e devem ser alvo de permanente fiscalização do ponto de vista da preservação ambiental”, complementa. Com esse alerta, Mundim acredita que é possível suprir a demanda brasileira.
A situação muda quando são consideradas as necessidades mundiais. Para substituir toda a gasolina consumida no mundo (mais de 1,1 bilhão de litros por ano, segundo dados de 2005) por etanol, a área plantada de cana teria de ser entre 250 milhões e 270 milhões de hectares. Outros países da África, da América Central e do Caribe teriam de entrar na produção.
Risco de falta de alimentos
Esses números levantaram o temor de que a cana-de-açúcar pode ocupar o lugar dos alimentos nas prioridades do mercado ou então promover o aumento dos preços, o que resultaria também em desabastecimento. Alguns dias depois do lançamento do relatório sobre mudanças climáticas, a ONU divulgou um documento com o alerta: “Os biocombustíveis líquidos podem ameaçar a disponibilidade de suprimentos de comida adequados ao desviar terra e outros recursos de produção das plantações para alimento”. É uma questão que preocupa fornecedores e compradores.
A China, por exemplo, tem experimentado uma alta dos preços dos grãos e do porco que foi atribuída ao crescimento desenfreado da indústria do etanol. Isso porque as plantações de milho voltadas para esse fim estão engolindo uma porção cada vez maior das colheitas destinadas ao consumo da população e à alimentação de animais. Diante desse aumento o governo chinês decretou uma moratória na produção de etanol.
Para José Roberto Moreira, do Centro Nacional de Referência em Biomassa da Universidade de São Paulo, é uma questão de encontrar o equilíbrio. “Hoje há mais de 1 bilhão de hectares de terras agrícolas não utilizadas no mundo. Mesmo quando a população alcançar seu pico (9 bilhões de pessoas em 2050), ainda haverá 500 milhões de hectares sem uso”, afirma o especialista.
 |
| Antigas usinas com altas chaminés de tijolos transformam-se em empresas com ganhos no processo industrial, como em Sertãozinho (SP) |
|
Esse número pode ser ainda maior porque, com o avanço da tecnologia, é possível produzir mais alimento na mesma área. Moreira acredita que poderemos usar essa terra sem afetar a produção de alimento hoje e no futuro. “Porém, em algumas regiões e em alguns momentos, terras desviadas para plantar energia deixam de produzir alimentos e novas áreas não são imediatamente exploradas. Há um aumento momentâneo do preço do alimento. Isso induz o agricultor a plantar mais e o equilíbrio é restabelecido.” Espera-se que ele esteja certo.
Perguntas freqüentes
O que são biocombustíveis?
São fontes de energia renováveis, derivadas de produtos agrícolas como a cana-de-açúcar, plantas oleaginosas (dendê, mamona, soja, milho), biomassa florestal e outros tipos de matéria orgânica que apresentam a vantagem de serem menos poluentes tanto durante a produção, quanto na combustão nos motores. Elas podem ser usadas isoladamente ou adicionadas aos combustíveis convencionais. A mais conhecida é o álcool etílico ou etanol extraído da cana-de-açúcar. Além disso, a mamona, o dendê, o buriti e várias plantas da Amazônia estão sendo estudadas para a produção do biodiesel. Em algumas regiões, já se começa a adicionar pequenas quantidades desses óleos vegetais ao diesel comum, reduzindo-se a dependência do petróleo. Outra alternativa de combustível bastante difundida são os óleos in natura, ou seja, sem a mistura de produtos químicos. A canola, o amendoim, a soja, o girassol e outros óleos bastante conhecidos têm sido utilizados na Europa para mover carros, caminhões e até mesmo locomotivas. No contexto mundial, os biocombustíveis deverão suprir uma importante parte da demanda por combustíveis, motivada principalmente por considerações de ordem ambiental.
Por que a cana é mais usada como biocombustível?
Porque a cana-de-açúcar é, de longe, o biocombustível que apresenta a melhor relação custo/benefício no mercado (muito mais do que o etanol de milho), e poucas regiões do mundo têm uma combinação tão boa de solo, clima, terra disponível e custo de mão-de-obra para o cultivo da cana como o Brasil. Além disso, a tecnologia para destilar o etanol de cana e misturá-lo à gasolina é comparativamente barata e fácil de obter. Praticamente todos os novos automóveis e a maioria dos mais antigos podem funcionar com gasolina misturada a até 10% de etanol e milhões de carros flex-fuel funcionam tanto com um quanto com o outro combustível, assim como com sua mistura em qualquer proporção. China, a Índia e a maioria dos países industrializados já adotaram ou estão estudando metas para a mistura etanol-gasolina, o que poderia criar um vasto mercado internacional para o etanol num futuro próximo.
O biodiesel pode ser utilizado no lugar do etanol?
Apesar de ser visto como uma alternativa interessante para substituir os combustíveis fósseis, o biodiesel ainda está longe de ser tão bem-sucedido quanto o etanol. Por sua vez, o álcool ainda não alcança a mesma robustez do diesel, o que dificulta o seu uso em ônibus e caminhões, tornando necessário o investimento no programa de biodiesel. Em 2008, por lei, deverá haver um acréscimo de 2% de biodiesel em todo o óleo usado no Brasil. Em 2013 a mistura sobe para 5%. Em todo o mundo a produção é de cerca de 10% da quantidade de álcool. Mas ainda há muitas questões a serem resolvidas para que a produção alcance larga escala. Também não é todo grão que serve. A soja, por exemplo, tem baixa produtividade e absorve apenas metade do gás carbônico emitido na queima do combustível. O melhor exemplo parece ser o óleo de palma ou dendê, que alcança taxas de produtividade e balanço de CO2 semelhantes à da cana-de-açúcar. Porém o dendê só cresce em zonas tropicais, com muita chuva, como a Amazônia ou a Bahia (foto). Considerando a região, o cuidado na hora de expandir tem de ser ainda maior. Não adianta nada derrubar floresta para obter uma alternativa energética, por mais “verde” que seja o combustível.
O que são biocombustíveis de segunda geração?
Por mais que se diga que há terra suficiente no mundo para a produção de biocombustíveis, um novo salto de tecnologia será necessário para substituir de fato todos os combustíveis derivados de petróleo no mundo. A saída parece estar em conseguir uma segunda geração de biocombustíveis procedente de resíduos, fragmentos de madeira, restos de celulose etc (foto abaixo). Isso sendo possível, em princípio qualquer planta pode virar combustível, e não apenas as com alto teor de açúcar, amido ou óleo. Para se ter uma idéia, apenas um terço da cana tem açúcar. A maior parte é fibra, biomassa não fermentável. Ou seja, dois terços são descartados. Novas técnicas em teste na Universidade Estadual de Campinas tentam converter a fibra ou celulose em etanol. Se forem bem-sucedidas, será possível incrementar em 200% a produção de álcool no Brasil só com o aproveitamento do bagaço e da palha da cana. Os Estados Unidos também estão investindo nisso, pois aí seu milho será tão viável quanto a cana.
O etanol da cana pode ser substituído pelo de milho?
Ele pode ser substituído, mas não é tão vantajoso. Os Estados Unidos, principais produtores mundiais do etanol de milho, já perceberam isso. A primeira vantagem da cana é de produtividade: a proporção de matéria-prima que vira combustível é muito maior em relação ao milho. Em segundo, há o ganho energético (energia produzida dividida pela energia gasta para produzir), que é de cerca de 700% com a cana, ante 10% do milho, de acordo com o ex-secretário de Ambiente do Estado de São Paulo e pesquisador da USP José Goldemberg. Por fim, mas não menos importante, está o equilíbrio de CO2. Enquanto a cana, durante o seu crescimento, absorve mais de 84% do gás carbônico que foi emitido na queima do combustível, o milho absorve apenas 30%.
O etanol poderia substituir definitivamente a gasolina?
Hoje, com 7,5 milhões de hectares de cana dedicados à produção de etanol, o Brasil poderia dispensar a gasolina.
Mas, a longo prazo, a situação é diferente. É preciso considerar que o número de automóveis cresce cerca de 3% ao ano. Em 2015, considerando que a produtividade também aumenta (em litros por hectare, algo como 1,5% ao ano), serão necessários 8,4 milhões de hectares. Se for levado em conta ainda a demanda externa, o Brasil precisa ter mais 1 milhão de hectares de cana plantada para exportar os 6 bilhões de litros esperados.
A expectativa é aumentar a exportação para 10 bilhões, que pedem outro 1,5 milhão de hectares. Alguns cenários projetam que o álcool brasileiro pode substituir até 5% da gasolina consumida no mundo em 2025.
Para atender a essa demanda, o Brasil precisaria cultivar cana em 22 milhões de hectares.
Um cultivo antigo no Brasil
A agricultura da cana-de-açúcar é uma velha conhecida do Brasil. Desde o tempo das capitanias hereditárias, ela foi o principal produto exportado e fez a riqueza da metrópole portuguesa. No século 18, a produção entrou em decadência com a competição do açúcar fabricada nas Antilhas pelos holandeses expulsos do Brasil, além do açúcar de beterraba produzido na Europa. A reorganização do setor canavieiro só veio a ocorrer na década de 1930 pela intensa ação do Estado que criou o Instituto do Açúcar e do Álcool, que fixou preços e cotas de exportação e importação. Em 1975, foi criado o Proálcool para incentivar a produção do etanol oriundo da cana como resultado do impacto negativo na economia nacional da crise do petróleo. Em 1979, o governo reformulou o programa para estimular a produção do etanol hidratado, que viria a ser usado diretamente nos motores de veículos. Hoje, a produção e a comercialização da cana, do açúcar e do etanol não se sujeitam mais ao controle do Estado, mas do mercado. A competitividade resulta das condições de produção e tecnologia e a oferta é mais do que suficiente para que o etanol seja usado como combustível na frota de veículos leves do território nacional.
|