Plantar florestas é uma boa idéia
Conheça as iniciativas que estão sendo desenvolvidas em todo o país para recuperar e conservar áreas de mata e ganhar pontos no mercado preocupado com o ambiente
Texto: Gleise Santa Clara
Desmatar e replantar – parece um contra-senso. Mas para reverter a tendência histórica do Brasil que já acabou com 17% da Amazônia e 93% da Mata Atlântica, a idéia é repor o estoque das nossas florestas. É a proposta que está na raiz – com o perdão do trocadilho – das várias iniciativas que estão ocorrendo em todo o Brasil para a reposição de florestas nativas, matas ciliares e até das iniciativas de neutralização do carbono, promovidas por empresas e cidadãos que fazem o cálculo de quanto emitem de gases de efeito estufa em suas atividades do dia-a-dia e compensam plantando árvores.
Reflorestar áreas degradadas e conservar florestas nativas é uma boa idéia, mas até pouco tempo atrás não havia como recompensar ou incentivar aqueles que se dispusessem a colocá-la em prática. Agora começam a se esboçar mecanismos financeiros destinados a manter o verde e compensar as emissões de carbono resultantes do desmatamento e assim promover a nossa principal riqueza – a biodiversidade. Por enquanto, essas iniciativas ocorrem nos mercados financeiros desenvolvidos paralelamente ao Protocolo de Kyoto e em alguns estados. Mas a tendência é que sejam reconhecidos nos acordos internacionais.
As possibilidades são muitas. Veja nas próximas páginas como funcionam. Ao lado, alguns exemplos de árvores usadas na recomposição de matas nativas.
Preparando-se para Kyoto
Empresas desenvolvem projetos de reflorestamento que podem ser candidatos aos créditos de carbono do tratado contra o efeito estufa
Ninguém duvida que a redução das emissões de gases de efeito estufa é hoje imprescindível para garantir a sobrevivência humana na Terra. Normalmente, esses gases que compõem a atmosfera, como o dióxido de carbono, ajudam a manter a temperatura do planeta. O que preocupa são as emissões adicionais, provocadas por alguns tipos de atividade humana, como a queima de combustíveis de carros, fábricas, usinas e queimadas. Por sua importância, e depois de muita pressão mundial, o tema foi transformado em tratado internacional, conhecido como Protocolo de Kyoto. Em vigor desde 2005, e válido até 2012, o acordo prevê uma redução da ordem de 5% nas emissões de gases poluentes por parte dos países industrializados. Os países denominados “em desenvolvimento”, como o Brasil, se comprometem com a adoção de medidas para que o crescimento de suas emissões seja contido, contando para isso com recursos financeiros e tecnologia dos primeiros.
Uma das estratégias que estão sendo utilizadas para isso é o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permite que os países ricos invistam em projetos de redução de emissões em países que não têm de cumprir metas. Podem adquirir “créditos de carbono” que os auxiliam a cumprir seus compromissos. Indústrias e usinas térmicas na Europa ou no Japão, que dificilmente poderiam substituir sua matriz energética a curto prazo, pagam para o funcionamento, em outros países, de empreendimentos menos poluentes.
Para que um projeto se encaixe dentro das regras do MDL é preciso cumprir o critério de adicionalidade, ou seja, precisa absorver carbono da atmosfera ou evitar o lançamento de gases de efeito estufa para compensar a poluição provocada pela empresa que o está financiando. Diferentes projetos já foram aprovados no Brasil que evitam o lançamento de gases em áreas de cogeração de energia e de aterros sanitários.
Embora, em princípio, seja uma boa idéia, é mais difícil encaixar a conservação e o manejo florestal dentro dos pré-requisitos para a obtenção de créditos de carbono. No caso da conservação de florestas não há adicionalidade, pois ela já absorvia carbono naturalmente mesmo sem o projeto. Mas essa possibilidade está sendo amplamente discutida, e já existem algumas bolsas de participação voluntária que negociam estes créditos, fora do mercado vinculado ao Protocolo de Kyoto. Uma dessas bolsas é a Chicago Climate Exchange. Existem também alguns fundos que apóiam esse tipo de projeto, como o BioCarbon Fund, do Banco Mundial, e o Climate Care.
Plantar árvores ou proteger áreas ameaçadas de florestas? O que é mais viável para conciliar a conservação das florestas com o combate ao aquecimento global? Para Clóvis Ricardo Schrappe Borges, diretor-executivo da organização não-governamental SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), que há 20 anos atua no Paraná, as duas ações são importantes. “O que precisa ser discutido é a prioridade para a proteção da região a ser trabalhada. Só plantar árvores, sem a garantia de que essas áreas serão realmente protegidas, é uma ação que pode ser facilmente contestada.”
Carvão vegetal na siderurgia
Um dos projetos que aguardam a definição das regras do MDL para reflorestamento está situado em Curvelo, Minas Gerais, onde a Plantar está investindo US$ 50 milhões no cultivo de uma floresta de 23.100 hectares (foto) para produzir carvão vegetal em área que estaria ocupada por pastagem na ausência do projeto. Com esse projeto, a empresa espera reduzir os gases de efeito estufa das chaminés de sua fábrica de ferro-gusa, que deixaria de usar coque ou biomassa não renovável. O plantio, no caso de eucaliptos, e a produção de carvão vegetal são objeto de controle socioambiental por meio de sistemas de certificação florestal e do monitoramento do Banco Mundial. Ao longo de 28 anos, o projeto fará com que se deixe de emitir 12,8 milhões de toneladas de CO2.
Preservação no Paraná
A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), em parceria com a ONG The Nature Conservancy e empresas como a General Motors, American Electric Power e Chevron, mantém uma série de projetos de conservação da Mata Atlântica no Paraná que prevêem também o “seqüestro de carbono”, ou seja, manter áreas naturais bem preservadas e, no caso de florestas degradadas, permitir sua regeneração ou restauração por meio de plantio de árvores nativas. Esses projetos são desenvolvidos em reservas próprias da SPVS (foto), localizadas na Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba (litoral norte do estado), e abrangem aproximadamente 19 mil hectares. Segundo Pedro Orlando Bentancourt, gerente de Relações Industriais e Governamentais da General Motors, “quando houver um mercado bem estruturado provavelmente contaremos com todos os créditos necessários para participarmos do MDL e os comprovantes necessários para isso”.
Medindo a absorção de carbono
Uma experiência desenvolvida pela Peugeot na Fazenda São Nicolau (foto), às margens do rio Juruena, em Mato Grosso, serve para medir como e em que quantidade o reflorestamento com espécies nativas tropicais absorve o carbono da atmosfera e influencia o clima. Iniciada em 1999, a experiência envolve o plantio de 10 milhões de árvores, recuperando a floresta em uma área de 5 mil hectares que teve a cobertura vegetal original devastada e transformada em pastagem. O trabalho está sendo executado pela Agência Nacional de Florestas e pela ONG Pro-Natura International. Durante os 40 anos previstos para a duração da experiência, será possível acompanhar minuciosamente o processo de captura e liberação de carbono em uma área definida, coberta por uma massa vegetal também controlada. A troca de carbono entre a floresta e a atmosfera é medida por antenas especiais, instaladas na fazenda. O objetivo é construir um modelo a ser multiplicado em outras regiões do País e do mundo para implantação de plantios florestais integrados a outras atividades.
Ganhando para não desmatar
Antecipando-se aos acordos internacionais para manter a floresta, estados como o Amazonas incentivam projetos de comunidades locais
Cientistas e ambientalistas de quase todo o mundo, inclusive do Brasil, acreditam que o combate ao aquecimento global deveria incluir políticas que estimulem os países que abrigam florestas tropicais a conservá-las. A proposta não está incluída nos mecanismos de flexibilização do Protocolo de Kyoto, ou seja, entre as alternativas que empresas e países possuem para conseguir cumprir as metas de redução de emissões de gases poluentes. Mas como o desmatamento responde por cerca de 15% das emissões globais, frear a devastação faz sentido, não só do ponto de vista de manutenção da biodiversidade, mas também de proteção do clima. Uma das propostas nesse sentido, apresentada pelo Brasil, é a de criação de um fundo que seria utilizado pelos países que comprovem a diminuição na velocidade de perda de florestas. A proposta está em discussão e até a renovação de Kyoto, em 2012, poderá ser analisada.
Enquanto isso, propostas desse tipo estão sendo avaliadas internamente no País. Seu objetivo é conservar a floresta – em especial a Floresta Amazônica, que já perdeu 17% de sua cobertura original – melhorando a qualidade de vida de seus moradores por meio do incentivo ao uso sustentável dos recursos naturais. A idéia embutida nessa proposta é que, se conseguir retirar seu sustento da floresta sem destrui-la, essa população se encarregará por conta própria de mantê-la intacta.
É o que propõe o programa Zona Franca Verde, criado pelo governo do Amazonas para promover o desenvolvimento sustentável no estado a partir de sistemas de produção florestal, pesqueira e agropecuária. Os beneficiários do programa são os pequenos produtores e micro e pequenas empresas, além de trabalhadores autônomos de baixa renda que recebem financiamento e assistência técnica para projetos de gestão ambiental. De 2004 a 2006, o Zona Franca Verde investiu cerca de R$ 20 milhões em projetos que incluem o aproveitamento de peixe, madeira, açaí, juta, malva e guaraná.
Bolsa Floresta
No mesmo estado, um outro programa inédito também pretende incentivar a permanência dos moradores da floresta. Trata-se do Bolsa Floresta, com o qual o governo do Amazonas vai comercializar créditos de carbono provenientes da preservação da floresta e, em uma ação de desenvolvimento sustentável, investir a verba na própria floresta. Os créditos não serão negociados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto, mas em mercados paralelos.
A idéia consiste em pagar R$ 50 mensais para as 8.500 famílias que moram em unidades de conservação do estado que não desmatarem a floresta – um total de 17 milhões de hectares ou 11,4% da área florestal do Amazonas. O objetivo é fazer com que essa população se dedique a atividades sustentáveis como extração de borracha, óleos vegetais, pesca não predatória e frutos. “O importante é que os programas não se limitem ao assistencialismo”, explica João Hipy, do Conselho Gestor da Cooperativa Verde de Manicoré (Covema). “É preciso que eles gerem renda.” A absorção de carbono das árvores será mensurada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Extração de borracha no Amazonas
Há cinco anos, a produção de borracha no Amazonas estava presente em apenas quatro municípios. Hoje são 12, mas as 600 toneladas por safra estão muito aquém da quantidade que era obtida na década de 40, quando cerca de 100 mil pessoas extraíam 42 mil toneladas de látex por ano no estado. A intenção do governo não é voltar aos velhos tempos, mas dobrar o número de municípios que se dedicam à extração e ampliar o número de seringueiros no Amazonas. Um dos caminhos para alcançar essa meta pode passar pelo Bolsa Floresta, quando ele estiver regulamentado. Moradores das unidades de conservação de municípios com vocação para essa atividade são capacitados para extração do látex, recebem um kit sangria e orientação para comercializar sua produção com a criação de uma associação agroextrativista. “É um estímulo ao uso sustentável dos recursos: os moradores sobrevivem da floresta sem degradá-la”, explica Adevaldo Dias, coordenador do Departamento de Produtos Florestais Não Madeireiros do governo do estado.
Projeto promissor na mata
A amêndoa extraída do muru-muru (foto), semente de uma palmeira espinhosa de folhas largas, comum nas áreas baixas da floresta, pode ser a esperança de um bom incremento na renda de algumas comunidades ribeirinhas do Amazonas. No interior do estado, a Associação de Moradores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), em Carauari, recebeu incentivos do programa Zona Franca Verde para iniciar um projeto que pode se tornar auto-sustentável a partir da próxima safra da planta. Com investimentos de R$ 120 mil, a cooperativa desenvolve a extração da semente que deve render 6 toneladas de manteiga, utilizada principalmente na indústria cosmética, sem alterar a floresta.
A Amaru representa 220 famílias que vivem em 22 comunidades às margens do rio Juruá, num total de 1.350 pessoas. Cada morador recebeu R$ 5 por lata de semente, com capacidade para 18 litros de muru-muru. Depois de vendida toda a produção da manteiga, o lucro será dividido entre os extrativistas e o restante investido na próxima safra.
Ampliando o mercado de castanha
Em 2004, a Cooperativa Verde de Manicoré (Covema) recebeu incentivo do programa Zona Franca Verde para aquisição de maquinário e assistência técnica para a extração tradicional de castanha-do-Brasil (foto). A estimativa é que a safra 2007 alcance até 200 toneladas de fruta seca – volume 30% superior à safra anterior –, com a qualidade da certificadora suíça IMO (Instituto de Mercado Ecológico). O programa possibilita que os cerca de 800 cooperados recebam parte da renda da castanha antes da venda da produção. No fim da safra, 60% do lucro é dividido de acordo com a produção individual. Dos 40% restantes, 20% são transformados em capital de giro e os outros 20% pagam as despesas com a operação. Pelos cálculos da Afloram, a agência governamental que elabora os projetos de financiamento, a renda familiar pode chegar a R$ 1,7 mil. João Hipy, do Conselho Gestor da Covema, aposta no mercado internacional e espera que a cooperativa consiga ampliar seu mercado sem a dependência financeira do governo.
Incentivo à produção do guaraná
Um dos maiores fabricantes de refrigerantes do Brasil, a AmBev aderiu, desde 2003, ao projeto Zona Franca Verde, desenvolvido pelo governo do Amazonas que prevê benefícios fiscais para as empresas que compram os insumos locais e promovem o desenvolvimento sustentável no estado a partir de sistemas de produção florestal.
A empresa compra toda a produção de guaraná da região de Maués e promove atividades de pesquisa para o aperfeiçoamento do cultivo da planta, incluindo o manejo do solo, plantio, tratos culturais, colheita e beneficiamento até a torrefação do grão. Nos últimos quatro anos, a AmBev desenvolveu programas de financiamento de projetos da população que incluíram, entre outras coisas, projetos de melicultura (a abelha é polinizadora do guaraná), produção de cana-de-açúcar, mandioca e construção de uma câmara frigorífica para beneficiamento da polpa da fruta.
A volta do verde na beira dos rios
Se a recuperação de áreas de florestas naturais é importante, quando localizadas às margens de cursos d’água é obrigatória. E do interesse das empresas
Evitar a contaminação dos rios, manter a integridade das margens e contribuir para a manutenção da biodiversidade são algumas das funções das matas ciliares. Esse tipo de vegetação funciona como um “cílio”, que protege os cursos d’água, retendo defensivos agrícolas, poluentes e sedimentos, o que afeta diretamente a quantidade e a qualidade da água e, conseqüentemente, a fauna aquática e a população. Apesar disso, no passado, era comum que agricultores substituíssem as matas à beira dos rios por capineiras, canaviais, pastagens ou outro tipo de atividade agropecuária.
Atualmente, a legislação protege a vegetação localizada nas margens dos corpos d’água, que são consideradas áreas de reserva permanente, onde é proibido desmatar. Segundo a lei, devem ser preservados 50 metros de vegetação natural no entorno de nascentes, 100 metros nas margens de represas e de 30 a 500 metros na beira dos rios, variando de acordo com a largura. Mesmo assim, quem mora nas grandes cidades já se acostumou a ver o crescimento de moradias de risco nas margens dos córregos e rios, além de depósitos de lixo e sujeira.
No Estado de São Paulo, as conseqüências desse processo são destacadas em diversos estudos que indicam a necessidade de recuperação de mais de 1,3 milhão de hectares de matas ciliares e o plantio de cerca de 26 milhões de mudas por ano. Não basta plantar apenas árvores. O primeiro passo de qualquer projeto de recuperação é o levantamento do tipo de vegetação remanescente para a recriação do ecossistema original. A Universidade Federal de Lavras (MG), que desenvolve intenso estudo sobre recuperação de matas ciliares, tem um acervo de mais de 700 espécies de árvores.
Um incentivo para esse tipo de trabalho são os certificados de qualidade, necessários principalmente pelas empresas que comercializam seu produto no mercado externo. O selo verde abre portas no País e no exterior, garantindo que a origem do produto não desrespeitou a legislação ambiental. Por isso, fazem sucesso programas como o Florestas do Futuro, da Fundação SOS Mata Atlântica, que promove o reflorestamento de áreas nativas de pelo menos cinco bacias hidrográficas: rio de Contas (BA), rio Doce (MG e ES), Paraíba do Sul (SP e RJ), rio Tietê (que corta o Estado de São Paulo) e rio Tibagi (PR). Criando em 2004, o programa já concluiu o plantio de 819 milhões de árvores. Empresas patrocinadoras escolhem as áreas onde pretendem plantar e a SOS Mata Atlântica procura os locais adequados para o reflorestamento.
Recuperação das matas na Serra do Japi
Três mil hectares de matas ciliares – essa é a meta de reflorestamento do programa que começa a ser colocado em prática pelo Instituto Coca-Cola, em parceria com a Coca-Cola Femsa. A fase inicial será na Serra do Japi (foto), Alto do Tietê, nas proximidades de Jundiaí, onde está instalada uma das maiores fábricas da empresa. Com investimento de R$ 27 milhões até 2011, o Programa Água das Florestas Tropicais Brasileiras, como foi batizado, prevê o replantio de 3,3 milhões de árvores, com apoio da Fundação SOS Mata Atlântica, e foi desenhado de acordo com as regras do Protocolo de Kyoto para poder integrar o mercado de carbono e adicionar recursos para a sua sustentação. O monitoramento da qualidade de água, o principal objetivo da iniciativa, será feito com a participação de escolas e um trabalho de conscientização da população local sobre a necessidade de conservação dos recursos naturais.“Além da recuperação das florestas e dos rios, o replantio terá impactos positivos na biodiversidade da fauna e da flora, por meio da melhoria da qualidade do clima e da água, e nas comunidades da região, que terá mais oportunidades de emprego”, afirma o diretor-superintendente do instituto, Marco Simões.
Em defesa do verde na bacia do Paraíba do Sul
Plantada em área do Colégio Agrícola Nilo Peçanha (vinculado à Universidade Federal Fluminense), a floresta patrocinada pela petrolífera espanhola Repsol YPF é uma espécie de laboratório natural para os 400 alunos da escola localizada no município de Resende (RJ). Na área localizada na bacia do Paraíba do Sul foram plantadas, em 2006, 15 mil árvores de diferentes espécies. O processo de preparação do terreno e a plantação das mudas foram acompanhados pelos alunos do curso, como parte das atividades pedagógicas. O projeto, desenvolvido em parceria com o programa Florestas do Futuro, da SOS Mata Atlântica, pretende proteger as encostas contra processos erosivos que vêm assoreando nascentes e cursos d’água da região, além de contribuir para o aumento da biodiversidade do local. O Paraíba do Sul abrange 160 municípios, atendendo uma população aproximada de 5 milhões de habitantes.
Projetos na região do Xingu
Preocupados com a degradação das nascentes e matas ciliares que ameaçam a região das cabeceiras do rio Xingu, os indígenas da região lançaram em 2004 a campanha Y Ikatu Xingu, destinada a recuperar a área e reverter a cultura do desmatamento. A expansão agrícola, o desmatamento e as queimadas provocaram a seca de várias nascentes e destruição das matas em torno do rio que abastece o Parque Indígena do Xingu. A campanha ganhou o apoio de prefeitos, fazendeiros, assentados, universidade e diversas empresas e ficou famosa pela presença da modelo Gisele Bündchen, que se dispôs a ajudar na arrecadação de fundos. Já foram elaborados 15 projetos para a capacitação de pessoas e instituições sobre o uso da água, plantio e apoio a assentados, além do desenvolvimento de experimentos na pecuária.
Recuperação no sudoeste da Bahia
Maior bacia da Bahia, Rio das Contas abrange 63 municípios, com uma população total de quase 1,5 milhão de pessoas. Ali está sendo realizado um diagnóstico dos remanescentes florestais e das áreas de preservação permanente, além de um levantamento florístico, para a restauração de 20 hectares de matas ciliares na região de Boa Nova e Vitória da Conquista. O projeto prevê também a mobilização social da população local e o cadastramento das propriedades ribeirinhas para mostrar a importância do manejo adequado dos recursos naturais que estavam extremamente degradados pelo tipo de ocupação da região. Os recursos, da ordem de R$ 273 mil foram garantidos pelo Projeto Corredores Ecológicos da Bahia, componente do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras (PPG-7), que tem o objetivo de manter a biodiversidade pela conservação e interconexão dos fragmentos dos ecossistemas locais.
A moda agora é neutralizar
Empresas e cidadãos aprendem a compensar suas emissões de carbono de efeito estufa plantando árvores. Mas é preciso saber como se faz o cálculo
A neutralização de carbono, isto é, a prática de compensação das emissões de gases por processos industriais, atividades corporativas, eventos e atividades humanas por meio do plantio de árvores, tem sido uma atitude cada vez mais freqüente de empresas que querem comunicar à sociedade suas ações de responsabilidade ambiental e chamar a atenção dos consumidores para o aquecimento global. Começa a virar rotina de organizações, independentemente do porte, agregar valor aos seus eventos, regenerando a vegetação nativa de determinada área, além de absorver o carbono da atmosfera.
No entanto, para empresários pequenos ou médios, que sozinhos não conseguem obter reduções significativas de emissões de dióxido de carbono, essa ação pode ser uma alternativa, desde que o compromisso com as metas globais não termine com o evento neutralizado.
Para quem deseja de fato efetuar a neutralização do carbono de sua empresa, é preciso fazer um inventário, ou seja, o mapeamento da rotina das atividades realizadas em relação ao consumo de combustível e energia. Para isso, deve monitorar as formas como utiliza a energia elétrica, a logística e os transportes. Somente a partir daí a organização poderá ter uma fotografia de suas emissões e saber exatamente onde estão as oportunidades de redução ou de compensações. “Além disso, é preciso haver mudança de comportamento para que a empresa mantenha seu comprometimento com a causa em todas as suas atividades”, afirma Francisco Maciel, diretor da Iniciativa Verde, que atua em projetos de neutralização de carbono.
A quantidade de árvores a ser plantada pela empresa que quer se credenciar como “livre de carbono” é calculada por consultorias especializadas. Elas atuam em parceria com ONGs que desenvolvem os projetos de neutralização de carbono e levam em conta usos de transporte e eletricidade e descarte de resíduos, entre outros itens. Mas não só as empresas são agentes de ações que emitem gases de efeito estufa e contribuem para a degradação do ambiente. Qualquer pessoa tem sua parcela de responsabilidade nessa conta e pode liquidar seu débito com a natureza.
Confira alguns sites para calcular sua dívida com o ambiente: www.iniciativaverde.org.br; www.florestasdofuturo.org.br; www.carbono-neutro.com.br
Al Gore dá o exemplo
Ninguém melhor que o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, principal referência mundial em assuntos ligados a mudanças climáticas e sustentabilidade, para servir de exemplo de neutralização de carbono de uma empresa. Ao percorrer o mundo com sua didática palestra sobre aquecimento global, transformada no documentário Uma Verdade Inconveniente, Al Gore veio ao Brasil em maio de 2007 a convite do Banco Itaú. A palestra, realizada no Auditório do Ibirapuera, localizado dentro do maior parque da cidade de São Paulo, contou com 800 participantes e recebeu o selo Carbon Free por ter neutralizadas suas emissões de carbono. Computados todos os cálculos com as atividades que promovem o lançamento de CO2 na atmosfera, o evento ficou com um débito de 64 árvores. As mudas serão plantadas em outubro junto com as árvores de todos os projetos desenvolvidos em 2007 pela Iniciativa Verde.
O plantio será feito em áreas de preservação permanente (APP) do interior paulista, nas margens e nascentes de rios.
Desfile promove mudanças
Pela segunda vez, em 2007, a São Paulo Fashion Week organizou sua semana de moda de forma sustentável ao neutralizar as emissões de carbono com a produção dos desfiles. A edição de junho lançou na atmosfera 522,2 toneladas de carbono, que serão compensadas com o plantio de 3.298 árvores. Os números representam avanço em relação ao evento anterior: em janeiro, as emissões haviam alcançado 644,2 toneladas de carbono, o que correspondeu a mil árvores plantadas a mais. Os resultados foram fruto de uma mudança de atitude que levou em consideração os números obtidos em janeiro. Os organizadores do desfile adotaram medidas para diminuir os efeitos negativos à natureza: reutilizaram 90% do material de cenário, diminuíram a quantidade de lâmpadas e migraram grande parte do material de divulgação impresso para o sistema online, entre outras providências. Além disso, os organizadores do desfile procuraram trabalhar a conscientização ambiental, dando oportunidade para que os visitantes do desfile calculassem suas emissões no dia-a-dia.
Show de música ganha selo
Organizadores de grandes eventos de música também aderiram à neutralização de carbono. Na produção desses espetáculos, os maiores vilões do meio ambiente são os geradores do sistema de som, pela quantidade de energia que consomem, e o volume de papel utilizado na confecção dos convites e programas do espetáculo, além das viagens dos artistas, que precisam se deslocar de uma cidade a outra ou até de um país a outro. Para ter uma idéia do custo de transporte, uma pessoa que faz o percurso São Paulo - Rio - São Paulo de avião é responsável pela emissão de 232 quilos de carbono na atmosfera, o que significa que teriam de ser plantadas duas árvores por passageiro para compensar o prejuízo à natureza. O Prêmio TIM de Música, que em maio recebeu o selo Carbon Free pela ação de neutralizar as emissões de carbono, foi responsável pela emissão de 36,8 toneladas de dióxido de carbono. Por isso a TIM vai financiar o plantio de 194 mudas em São Carlos, interior de São Paulo.
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