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A sustentável beleza da ilha

O paraíso turístico do litoral norte de são paulo sobrevive graças ao esforço conjunto para preservar suas condições naturais

Texto: Gustave Gama

foto: Marco Yamin
Encravada na Mata Atlântica a cidade de Ilhabela doi chamada de paraíso por Américo Vespúcio


O conhecido navegante italiano Américo Vespúcio, integrante da primeira expedição exploradora enviada por Portugal à Terra de Santa Cruz, em 1502, deixaria nos anais da história o seguinte comentário a respeito da região de Ilhabela: se existisse um paraíso na Terra, certamente estaria lá.

A ilha concentra todas as qualidades naturais do privilegiado litoral norte do Estado de São Paulo: beleza cênica, costa recortada que forma pequenas praias, rios e cachoeiras e exuberante Mata Atlântica que ainda persiste. Mas, ainda que seja isolada pelo canal de São Sebastião, Ilhabela tem sido ao longo do tempo maltratada pela ocupação desordenada e pela falta de uma política de preservação ambiental, o que vem suscitando ações da sociedade local, visitantes e moradores, para recuperar a ilha e implementar uma cultura que privilegie suas qualidades naturais.

Ilhabela, cuja população é de cerca de 28 mil habitantes, é o nome do município que engloba o arquipélago formado por três ilhas: a de São Sebastião, a maior delas, a de Búzios e a de Vitórias – além de outras oito ilhotas. Desse território de quase 350 mil km2, 85% é o Parque Estadual de Ilhabela, criado em 1977, com 27 mil hectares. São 45 praias, mais de 300 cachoeiras e uma trecho de Mata Atlântica preservada com toda a sua biodiversidade. O cururuá, por exemplo, é um roedor endêmico que ainda pode ser encontrado em abundância na ilha, assim como o macaco-prego, a capivara, a cotia e o caxinguelê. A ilha de São Sebastião, por onde se chega de balsa ou de barco, apresenta um relevo bastante acentuado, com destaque para os picos do Baepi, com 1.058 metros, o do Papagaio, com 1.307 metros, e o de São Sebastião, com 1.379 metros.

Com tantos apelos e atrações, além de suas tradições históricas (veja quadro na página 62), o processo de ocupação turística, ocorrido principalmente a partir dos anos 70, foi inevitável – Ilhabela é um dos 15 municípios paulistas considerados estâncias balneárias pelo governo do estado e 90% de sua economia é baseada no turismo. E, assim como outros paraísos ambientais, o município vem buscando desenvolver suas qualidades turísticas a partir de fundamentos e conceitos sustentáveis. O que vem ocorrendo de forma crescente é uma união de esforços entre poder público e sociedade civil, fundamental para preservar as condições naturais da ilha. Recentemente, Ilhabela foi escolhida pelo Ministério do Turismo como uma das 65 cidades indutoras para a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil – no Estado de São Paulo, é o único município, além da capital, a ter essa honraria. A prefeitura local, por sua vez, investe em fiscalização para coibir a expansão imobiliária em morros, encostas e costões, o que já foi bastante comum.

Justamente para entender e enfrentar essas questões, as organizações não governamentais se proliferan em Ilhabela. Uma delas é o Instituto Ilhabela Sustentável (IIS), responsável pelo movimento Nossa Ilha Mais Bela. Trata-se de uma associação criada por moradores, empresários, entidades e proprietários de casas de veraneio que buscam estimular a participação popular no diálogo com o poder público e desenvolver programas de educação cidadã. “Procuramos sempre promover ações de cidadania, conscientizar a sociedade civil a se unir para ter força”, ressalta o presidente do instituto, George Henry Grego. O fórum Nossa Ilha Mais Bela congrega mais de 40 entidades e se reúne mensalmente para discussão de temas como o meio ambiente, turismo e educação. Segundo Grego, diversas conquistas já são contabilizadas, como a recente reestruturação da Trilha do Gato, na comunidade tradicional caiçara da praia dos Castelhanos.

Próximo passo

O mais novo desafio do Instituto Ilhabela Sustentável é impedir a ampliação do porto de São Sebastião nos moldes propostos pelo estado, o que, segundo a entidade, causaria enormes impactos na vida do arquipélago (veja quadro na página 61). Para isso também aderiu ao movimento Porto Sim, Mas Sem Contêiner, organizado por ONGs socioambientais da região. Envolver a comunidade do entorno dos manguezais para a preservação de um dos maiores nichos de biodiversidade é o desafio principal da ONG Associação Sementes do Futuro. O programa SOS Mangue é uma das ações de sustentabilidade desenvolvidas pela entidade que acaba de ter um de seus projetos aprovados pela Petrobras. A nova proposta, denominada Toca do Guaiamu, será desenvolvida junto à comunidade do entorno do córrego da Água Branca, num total aproximado de 2 km. “O objetivo será a valorização da mata ciliar, educação ambiental da comunidade e estímulo à responsabilidade ambiental dos comerciantes e empresários”, conta o presidente da Associação Sementes do Futuro, Marcos Aurélio Alves do Nascimento.

Oficialmente, a ONG surgiu em 2006 e entre as ações já desenvolvidas destacam-se, além do SOS Mangue, o Dia Mundial Sem Carro, coordenado pela entidade desde 2000, sempre no segundo sábado de setembro. “Procuramos desenvolver ações que chegam a reunir mais de 300 pessoas”, conta ele.
Em Ilhabela existe a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), cobrada no terminal das balsas de todos os veículos que saem da ilha. Os recursos arrecadados com essa taxa são depositados na conta do Fundo Municipal de Meio Ambiente e investidos obrigatoriamente em projetos ambientais, aquisição de veículos para operações ligadas ao meio ambiente, além do custeio do sistema operacional. O Conselho Municipal de Meio Ambiente, formado por representantes do poder público e da sociedade civil organizada, é o responsável pela aplicação do dinheiro. “Acho justo essa cobrança, pois moramos numa cidade diferenciada, um verdadeiro paraíso, que precisa ser preservado”, diz a moradora Ana Lúcia de Souza.

Uma questão importante que envolve a ilha é o destino do lixo local – e também nesse aspecto as ações de reciclagem servem de exemplo. A Associação Centro de Triagem desenvolve um trabalho consistente há nove anos. Ao todo, 20 associados trabalham na separação dos materiais recicláveis. Cada um recebe vale-transporte e vale-alimentação da prefeitura local, que também forneceu três prensas utilizadas no serviço. “Além do poder público municipal, nossos grandes parceiros são os supermercados, que nos destinam todo o material reciclável, principalmente plástico e papelão”, diz Maria Lúcia Prado, coordenadora da associação. Ilhabela é hoje o município que mais recicla lixo em todo o litoral norte do Estado de São Paulo. Pelo menos 10% de todo o lixo é reciclado. Garrafas PET, papelão, vidro, plástico, entre outros materiais, são separados manualmente pelos funcionários da associação – homens e mulheres que trabalham num galpão localizado no antigo lixão da cidade, no bairro Água Branca. “Numa ilha, reciclar torna-se ainda mais essencial, já que os locais para depósito do lixo produzido são escassos”, diz a empresária e ambientalista Clara Maria de Souza, que tem casa de veraneio no arquipélago. O lixão já não funciona mais. Hoje, a prefeitura local faz apenas o transbordo do lixo, que é ‘exportado’ para o aterro sanitário licenciado em Tremembé, no Vale do Paraíba – até que uma área para a construção do aterro regional seja definida e licenciada pelos órgãos ambientais. Outra questão fundamental é o saneamento da ilha. Segundo a Sabesp, com a operação da rede de esgoto do bairro Barra Velha, prevista para janeiro de 2010, o índice de saneamento básico do município de Ilhabela será elevado de 4% para 36%.

EXCLUSIVO ON-LINE

Confira reportagem da edição 66 de Horioznte Geográfico sobre Ilhabela. Conheça mais sobre a história da cidade, a cultura e as tradições que os moradores caiçaras mantêm preservadas.

HG 66 - Ilhabela, capital do mar

 

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